
Especialistas apontam motivações emocionais, econômicas e políticas por trás do crescimento de discursos e atos de violência contra mulheres; recrutamento de adolescentes e papel das plataformas são destaque.
Nos últimos meses, uma série de casos de violência e ódio contra mulheres tomou conta dos noticiários e das redes sociais. O feminicídio de uma policial militar pelo companheiro em São Paulo, o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro e vídeos virais em que homens simulam atacar mulheres que rejeitam pedidos de casamento são alguns exemplos. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, esses episódios não são isolados e integram uma engrenagem complexa de misoginia que conecta experiências individuais de frustração a estruturas econômicas e projetos políticos globais.
A ORIGEM DO ÓDIO
A socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora de gênero e misoginia, destaca que a violência contra a mulher é secular e está enraizada na construção da sociedade patriarcal. “Falamos muito sobre o aumento dessa violência, mas ela é secular, existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submissão das mulheres, e a internet potencializa essa violência”, afirma.
Confira na reportagem do Repórter Brasil, da TV Brasil

O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acrescenta que as expressões de ódio às mulheres se intensificaram como reação às conquistas femininas. “Desde quando as mulheres começaram a ocupar outros lugares na sociedade que não fossem o do cuidado doméstico. Isso, invariavelmente, mexe nas estruturas da sociedade, na intimidade da vida doméstica e familiar”, explica.
RECRUTAMENTO PRECOCE
Pesquisadores identificam que meninos cada vez mais jovens estão sendo atraídos para a chamada “machosfera” — termo que engloba fóruns, canais de vídeos, grupos de mensagens e perfis em redes sociais voltados para a defesa de um padrão conservador de masculinidade e oposição aos direitos femininos.
A ativista feminista e professora Lola Aronovich, que sofre ataques virtuais há anos, relata que o recrutamento acontece de forma gradual. “Comecei a pesquisar o Discord e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. No meio da conversa, ao falar de mulheres, vão usar expressões como ‘vagabundas’ e ver como esse menino reage. Ao perceberem uma abertura, continuam a cooptação”, explica.
Pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Julie Ricard mapeou estratégias de recrutamento no Telegram e identificou 85 comunidades abertas. “Há aquelas explicitamente misóginas e outras se apresentam como espaços de autoajuda ou desenvolvimento econômico. Nesses casos, os jovens acessam conteúdos que parecem neutros, mas encontram narrativas de ressentimento contra mulheres”, diz.
Estudos do NetLab (UFRJ) mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube e mostram que temas como “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez” funcionam como pontes para conteúdos de ódio.
FRUSTRAÇÃO E VULNERABILIDADE
O psicólogo Benedito Medrado explica que a engrenagem misógina depende de matéria-prima emocional: frustração, isolamento e insegurança, especialmente entre adolescentes e homens em situação econômica vulnerável. Jovens que não encontram espaço de diálogo em casa são os mais suscetíveis.
“Sem interações e conflitos, não há possibilidade de a família criar filtros sobre a informação que eles acessam. Há um processo de fragilização grande porque estão tentando construir a si mesmos, e conteúdos violentos podem ser mais atrativos”, afirma.
Entre homens adultos, a pesquisadora Julie Ricard aponta que o ressentimento com a própria situação — tanto econômica quanto afetivo-sexual — leva muitos a usar mulheres e o feminismo como bodes expiatórios. “Muitos se apresentam como vítimas, porque se veem como homens feios ou sem dinheiro. São frustrações masculinas tanto em relação às mulheres, quanto ao próprio lugar deles na sociedade”, explica.
HIERARQUIAS DO ÓDIO
A socióloga Bruna Camilo destaca que por trás da aparente espontaneidade dos grupos misóginos há liderança e organização, frequentemente conduzida por homens com mais de 40 anos. “São pessoas que viveram o mundo antes e depois da internet. Em comum, costumam também ser ressentidos, alguns com ódio inclusive das próprias mães”, afirma.
Os especialistas também apontam o papel das grandes plataformas digitais. “Esses grupos misóginos notaram que ninguém os proibia de agir nas redes sociais. Pelo contrário, passaram a receber dinheiro por serem misóginos. Há cada vez mais gente apostando nisso, vivendo disso”, diz Lola Aronovich, que menciona a assimetria na moderação de conteúdo: canais feministas têm conteúdo derrubado, enquanto canais que defendem a morte de mulheres permanecem no ar.
PROJETO POLÍTICO
No topo da hierarquia estão políticos que influenciam e são favorecidos pela ampliação da misoginia. “Antes, os misóginos costumavam se esconder em identidades anônimas na internet. A partir da campanha eleitoral do Trump, em 2016, a gente viu uma mudança grande. Eles começaram a dar as caras. Depois, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, a mesma coisa”, observa Lola.
Para Bruna Camilo, o projeto político da extrema-direita se beneficia com ideais reacionários de masculinidade e submissão das mulheres. “No fundo, trata-se de controle dos corpos. O debate de gênero provoca discussões profundas na sociedade. O que interessa à extrema direita é manter o status quo, em que as mulheres não questionam, e os homens concentram poder político e social”, analisa.
CAMINHOS POSSÍVEIS
Apesar de avanços como a Lei nº 13.642/2018, que determina a investigação de crimes de ódio contra mulheres na internet, especialistas apontam lacunas. Uma delas é a necessidade de criminalização da misoginia no país. “O que adianta a Polícia Federal dizer que determinada pessoa foi misógina, se isso não pode ser tipificado como crime? Não dá para ir muito adiante, e gera uma sensação de maior liberdade e impunidade”, diz Lola.
O enfrentamento exige ações em múltiplas frentes: diálogo em casa e nas escolas, fortalecimento da saúde mental de jovens e regulação das plataformas. “Avançamos na legislação sobre proteção digital, mas não conseguimos impedir ainda que as big techs mantenham conteúdos misóginos em suas plataformas. Por que até hoje a Câmara dos Deputados não chamou representantes desses grupos e pediu explicações sobre a construção desses algoritmos? Se não há enfrentamento, é porque há interesses políticos”, questiona Bruna Camilo.
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Edição: Aurélio Fidêncio
Matéria: Rafael Cardoso
Fonte: Agência Brasil
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