
Dispositivos podem conter doses de nicotina muito superiores às do cigarro tradicional e gerar dependência química, psicológica e comportamental; SUS oferece tratamento gratuito.
A ideia de que o cigarro eletrônico é uma alternativa inofensiva ou recreativa ao fumo tradicional é um engano perigoso. Assim como o cigarro comum, os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) são nocivos à saúde e causam dependência. A falsa percepção de segurança, agravada pelos aromas atrativos e pela ausência de fumaça visível, tem levado muitos jovens a adotarem o hábito sem consciência dos riscos. A dependência é provocada principalmente pela nicotina, uma substância psicoativa presente na maioria dos líquidos (as “essências”) utilizados nesses dispositivos. Essa substância altera o Sistema Nervoso Central, liberando neurotransmissores ligados à sensação de prazer e motivação, o que leva rapidamente ao vício químico.
O potencial viciante do cigarro eletrônico pode ser, em muitos casos, ainda maior que o do tradicional. Enquanto um cigarro convencional vendido no Brasil tem um limite de aproximadamente 1 mg de nicotina por unidade, os líquidos para DEFs podem conter concentrações extremamente elevadas. “Os eletrônicos, que são pequenos e se assemelham a um pen drive, chegam a até 57 mg da substância por ml do líquido”, alerta Stella Martins, especialista em dependência química do Hospital das Clínicas da USP. Além da nicotina, esses produtos contêm outras substâncias tóxicas e aromatizantes que, quando inalados, causam danos severos aos pulmões e à saúde cardiovascular. É crucial entender que mesmo os DEFs que alegam ser “livres de nicotina” não são seguros, pois suas outras composições químicas são prejudiciais ao organismo.

A dependência gerada pelo cigarro eletrônico se manifesta em três frentes: química, psicológica e comportamental. No aspecto químico, o corpo passa a exigir doses crescentes de nicotina. Psicologicamente, o usuário associa o ato de fumar ao gerenciamento de emoções, como alívio do estresse ou comemoração. Comportamentalmente, cria-se um hábito vinculado a situações cotidianas, como tomar café, fazer uma pausa no trabalho ou sair com amigos. “O eletrônico fica ali constantemente sendo usado, praticamente o dia inteiro, a qualquer hora e lugar”, explica Andrea Reis, chefe da Divisão de Controle do Tabagismo do INCA. Essa acessibilidade e discrição facilitam o uso constante, aprofundando o vício.
Parar de usar o cigarro eletrônico exige decisão e suporte. Por ser um produto relativamente novo, os protocolos específicos ainda estão em consolidação, mas a diretriz atual das autoridades de saúde é clara: quem deseja parar deve buscar ajuda profissional. O caminho mais seguro e eficaz é procurar os serviços especializados no tratamento do tabagismo. Esses serviços oferecem acompanhamento multiprofissional, que pode inclui suporte psicológico para entender os gatilhos do vício e estratégias para lidar com a abstinência. É um mito que os DEFs ajudem a parar de fumar; na realidade, eles frequentemente servem como uma porta de entrada para a nicotina ou perpetuam a dependência. Parar de fumar significa zerar o consumo de nicotina em qualquer forma.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento integral e gratuito por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT). O tratamento está disponível em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e em Centros de Referência espalhados pelos municípios. O programa combina abordagens comportamentais em grupo ou individual e, quando indicado por um médico, pode incluir o uso de medicamentos para reduzir os sintomas da abstinência. O primeiro passo é procurar a UBS mais próxima para obter informações sobre os grupos de cessação do tabagismo e se inscrever. Reconhecer o vício e buscar ajuda especializada é a atitude mais importante para recuperar a saúde e a liberdade em relação à nicotina.
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Edição: Aurélio Fidêncio
Fonte: Instituto Nacional do Câncer (INCA) e Hospital das Clínicas da USP
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