
Trocadilho da atriz com a expressão “com os dois pés” em campanha de ano novo é interpretado como mensagem política por grupos bolsonaristas, que iniciam boicote e afetam valor de mercado da marca.
O simples ato de calçar um chinelo virou um termômetro da polarização política no Brasil. Uma campanha publicitária das Havaianas para o ano novo, estrelada pela atriz Fernanda Torres, detonou uma onda de críticas e chamados de boicote por parte de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que interpretaram uma frase do comercial como uma provocação política direcionada à direita. A peça, que mostra a atriz em um ambiente descontraído, traz o trocadilho “eu prefiro que a gente entre com os dois pés”, uma brincadeira com o ditado popular “começar o ano com o pé direito”. Para setores conservadores, a fala seria uma defesa do governo Lula, que assumiu a presidência com uma coalizão de esquerda, e um ataque simbólico à ideia de “pé direito”. A polêmica, amplificada nas redes sociais, resultou em vídeos de políticos bolsonaristas destruindo seus chinelos, uma queda no valor de mercado da empresa controladora das Havaianas, a Alpargatas, e um súbito crescimento nas redes de uma concorrente direta.
A campanha, que circulou nas redes sociais da marca no final de dezembro, parecia inofensiva à primeira vista. Fernanda Torres, em seu estilo característico, fala sobre desejos para o ano novo e solta a frase: “Eu, particularmente, prefiro que a gente entre com os dois pés”. O contexto do vídeo é leve, sem qualquer menção política explícita. No entanto, em um país onde a linguagem cotidiana é constantemente escaneada em busca de subtextos ideológicos, a interpretação foi rápida e furiosa. Influenciadores digitais e apoiadores de Bolsonaro começaram a acusar a Havaianas de fazer propaganda petista, argumentando que “entrar com os dois pés” seria uma referência à aliança PT-PSDB ou uma tentativa de deslegitimar o desejo de “começar com o pé direito”, visto como um valor de direita. A hashtag #BoicoteHavaianas começou a ganhar tração, com milhares de menções e vídeos de consumidores indignados.
A reação em cadeia foi rápida e medível. Políticos da base bolsonarista aderião ao movimento. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo jogando um par de Havaianas no lixo. A deputada estadual de São Paulo, Marília Santos (PL), fez o mesmo, declarando que a marca “escolheu um lado”. Outros repetiram um novo trocadilho, adaptando o famoso slogan “Havaianas. Todo mundo usa” para “Havaianas. Nem todo mundo vai usar”. O efeito financeiro não demorou a aparecer. As ações da Alpargatas (ALPA3) na Bovespa registraram queda nos dias seguintes à explosão da polêmica, em um movimento que analistas do mercado associaram, em parte, ao ruído negativo nas redes. Paralelamente, a concorrente Rider, marca do grupo Grendene, viu seu perfil no Instagram ganhar dezenas de milhares de novos seguidores em poucos dias, com comentários de usuários declarando migração por motivos políticos.

A Havaianas, por sua vez, adotou uma postura típica de grandes marcas em meio a crises de reputação: manteve silêncio oficial sobre a interpretação política, sem se manifestar para endossar ou negar as acusações. A estratégia parece ser a de não alimentar o fogo da controvérsia, tratando-a como um mal-entendido que deve se dissipar. Especialistas em marketing apontam que a marca, com um apelo massivo e popular, historicamente evitou alinhamentos políticos explícitos para não fragmentar seu público. A campanha com Fernanda Torres, dentro deste contexto, pode ser vista como um tiro pela culatra, onde uma brincadeira linguística colidiu com a sensibilidade hiperpolitizada do momento. A situação expõe o desafio das empresas em um ambiente onde o consumo é cada vez mais visto como um ato de identidade política, e qualquer mensagem pode ser decodificada como um posicionamento.
Enquanto a tempestade nas redes acontecia, uma imagem paralela e poderosa surgiu nas praias do litoral brasileiro: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Janja, foram fotografados e filmados em momentos de descanso, usando justamente Havaianas. As imagens, amplamente compartilhadas, foram interpretadas por parte do público como uma resposta não-verbal, uma apropriação simbólica do produto no campo oposto. Se para uns o chinelo era agora um artefato de esquerda a ser rejeitado, para outros tornava-se um símbolo de brasilidade e descontração, usado pelo próprio presidente. O episódio criou um paradoxo cultural: o mesmo objeto é simultaneamente rejeitado e abraçado por razões políticas diametralmente opostas.
O fenômeno vai além do boicote e atinge o cerne da cultura pop e do marketing nacional. As Havaianas são um ícone global do Brasil, um produto de sucesso que transcende classes sociais. Ver uma marca com esse status ser arrastada para o centro do furacão político ilustra o grau de penetração da divisão ideológica no cotidiano. Debates acalorados surgiram sobre até que ponto as empresas devem se posicionar, se os consumidores estão sendo excessivamente sensíveis, e qual o limite entre a liberdade criativa da publicidade e a responsabilidade corporativa em um país dividido. A concorrente Rider, por exemplo, aproveitou a deixa para postar conteúdos com a hashtag #TodoMundoUsa, em uma clara provocação indireta, sem mencionar a rival, mas surfando na onda da atenção.
O desfecho desta crise ainda é incerto. O histórico mostra que boicotes movidos por polêmicas nas redes sociais tendem a ter vida curta, mas podem deixar marcas duradouras na percepção de uma marca. O prejuízo financeiro imediato pode ser recuperado, mas a associação da Havaianas a um “lado” do espectro político, mesmo que involuntária, pode alterar seu relacionamento com parte do público no longo prazo. O caso serve como um estudo de manual para o risco de comunicação em tempos de guerra cultural. Em um Brasil onde até um chinelo pode ser lido como um manifesto, as marcas são forçadas a navegar com extremo cuidado, pois uma simples campanha de ano novo pode, literalmente, fazer alguém entrar no novo ano com o pé esquerdo no mundo dos negócios.
Enquanto isso, nas praias e nas ruas, o brasileiro comum segue seu verão. Muitos, alheios ou cansados da briga digital, continuam calçando suas Havaianas pela praticidade, pelo conforto ou pelo afeto a um símbolo nacional. Outros, conscientemente, escolhem calçá-las ou evitá-las como um ato político. A cena descrita por um internauta resume a surrealeza do momento: Lula e Janja caminham pela praia, de Havaianas nos pés, enquanto parte do país tenta decidir se o chinelo é de direita, de esquerda ou uma ameaça à democracia. Ao fundo, o mar segue indiferente, ondas quebrando e recuando, e o brasileiro segue discutindo sandália como se fosse projeto de lei. A disputa pelo significado de um objeto tão ordinário revela o extraordinário abismo no qual o debate público brasileiro se instalou, onde tudo, até o que se veste nos pés, é passível de se tornar trincheira.

