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TEM MUITA TERRA SEM GENTE. TEM MUITA GENTE SEM TERRA

PLANTAR PARA COLHER E ALIMENTAR

No princípio, era a terra; era semente.
Tupã, senhor dos trovões e da criação, soprou o divino alento sobre o mundo e fez do chão um ventre fértil.
De suas mãos nasceu a vida, e da terra molhada brotaram os primeiros povos — os povos originários, os verdadeiros donos da terra, filhos do Sol, irmãos da Lua, guardiões da mata, filhos da esperança.

Entre os raios de sol, semeavam-se os ciclos da natureza. Florestas se ergueram em reverência, rios cantaram em correnteza sagrada.
Tudo era comunhão, tudo era respeito.
Ele gerou as deusas da abundância:

  • a Deusa da Agricultura, que ensinou a semear;
  • a Deusa da Fertilidade, que fez brotar o amor da terra;
  • e a Deusa da Fartura, que pintou os campos de alimento.

Mas chegaram os invasores do além-mar.
De Portugal vieram com cruz e espada, cercaram o mundo com cercas e decretos, e disseram que a terra agora tinha dono.
Nascia o latifúndio, a divisão sem justiça, a herança da dor que ainda grita:
Tem muita terra sem gente, e muita gente sem terra.

O negro, arrancado da África como raiz à força, plantou resistência nas lavouras de cana-de-açúcar.
Entre o açoite e a enxada, ergueu os quilombos.
Ali floresceu a roça da liberdade, o saber ancestral da terra para a subsistência.
Vieram outras culturas, sementes de outros mundos:
o algodão, o trigo, o verde das hortaliças.

Tudo cultivado com suor e esperança, por mãos imigrantes.
De grão em grão, no suor da colheita,
foram escrevendo a memória de um Brasil plural.
E pela terra, houve lutas e guerras:
Canudos e Contestado — campos de fé e sangue,
onde o povo dizia não com o coração.

Das cinzas dessas lutas nasceu a teimosia da esperança.
A resistência virou reza,
a fé virou feijão na panela.
Mas a ganância e a cobiça humana não se calam:
derrubam florestas, envenenam solos,
espalham o veneno com mãos de lucro.
A cobiça se disfarça de progresso, mas mata o amanhã.
Os latifúndios seguem se alastrando,
como praga que sufoca o broto.
Vêm as secas, queimando a esperança,
e as lavouras gemem sob o peso da peste:
pragas semeadas pela ambição.

O chapéu-de-bruxa encobre os campos,
como sombra da desordem natural,
e a colheita chora no silêncio da terra.
Tem muita terra sem gente, e muita gente sem-terra.

O querer do pedacinho de chão insiste em germinar,
e nos campos, enquanto a esperança brota em segredo,
os aliados pequenos vigiam:
abelhas polinizam os sonhos,
joaninhas guardam os brotos,
libélulas dançam com a luz,
aranhas tecem teias de equilíbrio.
Capuchinha, funcho, girassol —
plantas que protegem com perfume e cor,
dizem que a natureza é sabedoria que cura.

Na roça, o homem do campo, com sua fé, ora, agradece ao sol,
saúda a chuva, faz da casa um altar de barro e ternura.
O galo canta e desperta o meu lugar,
terra fértil de história, memória viva do chão.
Ali, o porco, a vaca leiteira, a cabra
e a galinha com seus ovos no quintal,
as crianças cantam para plantar.
Milho cresce, feijão floresce,
que o pão da terra nunca falte!

O homem do campo ara a terra com bravura e devoção,
cultiva a terra feito as flores que cobrem esse chão.
Arar, semear, cuidar, colher os frutos desse chão:
é essa a liturgia do lavrador,
em cada estação, em cada oração.

E a agricultura crioula resiste.
Com sementes guardadas em latas antigas,
com canto e mutirão.
Lavrador, com as mãos calejadas, lavra o chão:
milho crioulo, arroz orgânico, café de quintal, cacau de esperança.
Verduras que brotam em quintais humildes,
legumes regados com fé e paciência.
Tua arte é cultura, o ofício do camponês é a agricultura.
Sabedoria para cultivar, preservar essa riqueza.
Terra farta, gente feliz.

Porque a terra dividida com justiça
é a colheita que alimenta todos.
Divide esse chão, para colher.
Semear o grão é plantar e colher para alimentar o mundo.
É a festa da partilha, o banquete da sustentabilidade.
Plantar com a natureza — e não contra ela —
é semear futuro, é colher dignidade.
É preciso progredir, dividir e proteger.

E então vem a grande festa da colheita!
A roça canta, a terra sorri, e o povo desfila sua vitória.
A enxada vira estandarte, a palha é fantasia,
o suor vira brilho na avenida.
Pois a Terra é mãe, é altar, é amanhã.
E quem planta com amor,
colhe o eterno carnaval da fartura.

Colhe o amanhã no hoje,
colhe a vida com alegria,
colhe a esperança feita flor,
e samba — samba como quem agradece:
por cada semente, por cada fruto,
por cada homem do campo que nunca desistiu.

Aurélio Fidêncio

(15) 99732-1144

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