
Soldado Lucas Bernardo, que deixou esposa grávida e dois enteados, foi atropelado na madrugada deste domingo no Jardim Peri após dar ordem de parada a um grupo de motos; suspeitos fugiram e não foram identificados.
Um policial militar de 27 anos foi morto em serviço na madrugada deste domingo, 4 de janeiro de 2026, após ser atropelado intencionalmente por motociclistas que ignoraram uma ordem de parada durante uma blitz na zona norte de São Paulo. O soldado de 2ª classe Lucas Lopes Bernardo, do 9º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, participava de uma operação na Avenida Inajar de Souza, no bairro Jardim Peri, quando avistou um grupo de motos se aproximando. Ao dar a ordem para que parassem, os condutores não apenas desobedeceram como atropelaram o policial e fugiram do local sem prestar qualquer socorro. Lucas sofreu parada cardiorrespiratória e foi levado ao Hospital Cachoeínha, mas não resistiu aos ferimentos. Ele deixa a esposa grávida, dois enteados e uma carreira de dois anos na PM, descrita pela corporação como “exemplar”.
O incidente ocorreu por volta da 1h30 da madrugada, em um trecho movimentado da Avenida Inajar de Souza, altura do número 5.500. De acordo com o relato preliminar da Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), a blitz estava estabelecida e em andamento quando o grupo de motocicletas foi avistado. O soldado Bernardo, seguindo o protocolo, emitiu a ordem clara e sonora de parada. A reação dos motociclistas, no entanto, foi de total desprezo pela autoridade. Eles aceleraram em direção ao policial, atingindo-o com violência, e seguiram em fuga pela avenida, desaparecendo na escuridão. Testemunhas no local acionaram o socorro imediatamente, mas a gravidade do atropelamento foi fatal. O corpo do policial foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para a necropsia, e o Instituto de Criminalística (IC) foi acionado para realizar perícia no local, coletando vestígios que possam identificar os veículos e seus condutores.
A Polícia Militar emitiu uma nota oficial lamentando profundamente a morte do soldado. O texto destaca o “serviço exemplar” prestado por Lucas Bernardo em seus dois anos de instituição e estende os sentimentos à família enlutada, especialmente à esposa grávida e aos dois enteados. “Neste momento de profunda dor, expressamos nossas condolências e agradecemos todo o empenho, esforço e dedicação à Polícia Militar e à sociedade paulista”, diz a nota. A corporação agora mobiliza esforços em conjunto com a Polícia Civil para identificar e capturar os responsáveis. O caso foi registrado como homicídio doloso (com intenção de matar ou assumir o risco) no 72º Distrito Policial (Vila Penteado), e uma força-tarefa com investigadores da Divisão de Homicídios (DH) e do Departamento de Crimes contra o Patrimônio (Decap) deve ser formada para seguir as pistas.

O perfil do policial morto revela uma vida interrompida no início da trajetória. Lucas Lopes Bernardo tinha 27 anos e integrava o 9º BPM/M, unidade responsável por uma vasta e complexa área da capital. Colegas o descrevem como um profissional dedicado e corretor, que vestiu a farda por vocação. Sua morte expõe de forma crua os riscos extremos que os policiais militares enfrentam diariamente nas ruas, especialmente em operações de abordagem de rotina, onde a imprevisibilidade é a única certeza. A tragédia também joga luz sobre a escalada de violência contra agentes de segurança em São Paulo, onde a desobediência a ordens policiais tem culminado, com frequência crescente, em agressões graves e mortes.
A investigação agora segue por múltiplas frentes. A prioridade é identificar os motociclistas. Peritos do IC analisam imagens de câmeras de monitoramento público e privado do entorno da Avenida Inajar de Souza e das vias de fuga. A possibilidade de os veículos serem roubados ou clonados também é considerada. Investigadores buscam padrões em ocorrências similares na região, tentando vincular o modus operandi a outros crimes ou a facções criminosas que atuam na zona norte. O depoimento de outras testemunhas, além daquelas que presenciaram o atropelamento, é crucial para compor o retrato do grupo. Paralelamente, a Polícia Civil deve requisitar quebra de sigilo de linhas telefônicas na área e cruzar dados de inteligência para tentar localizar os suspeitos.
A morte do soldado Lucas choca a corporação e reacende o debate sobre a necessidade de medidas protetivas mais eficazes durante abordagens. Especialistas em segurança apontam que, embora o treinamento padrão preveja posicionamento tático e uso de barreiras físicas em blitzen, a ação de motociclistas em grupo representa um desafio singular pela velocidade e mobilidade. A discussão sobre o uso de tecnologias que possam imobilizar veículos à distância, como já ocorre em alguns países, ou o reforço do efetivo com equipamentos de contenção mais robustos, deve ganhar força após este episódio. No entanto, a realidade orçamentária e operacional da PM muitas vezes esbarra nesses avanços.
Para a família de Lucas Bernardo, inicia-se agora um longo processo de luto e de busca por justiça. Além da dor da perda súbita, a esposa grávida enfrenta a perspectiva de criar os dois enteados e o futuro filho sem a presença do marido. A PM garante que prestará toda a assistência social, psicológica e jurídica à família, além dos benefícios previdenciários previstos para casos de morte em serviço. A comoção entre os colegas de farda é grande, e uma cerimônia militar para render homenagens ao soldado morto no cumprimento do dever deve ser organizada nos próximos dias.
Este é mais um caso que mancha de sangue o início de ano em São Paulo e serve como um trágico alerta sobre a violência no trânsito e a criminalidade que desafia o Estado. A morte do soldado Lucas Bernardo não é uma estatística; é a história de um jovem servidor público que saiu para trabalhar e não voltou para casa, vítima de um ato de brutalidade covarde. A pressão agora é sobre as polícias para que encontrem rapidamente os autores, não apenas para aplicar a lei, mas para mandar uma mensagem clara de que ataques às forças de segurança, símbolos do Estado Democrático de Direito, não ficarão impunes. Enquanto isso, no Jardim Peri e em milhares de quilômetros de asfalto paulista, outros policiais como Lucas continuam seu turno, sabendo que a próxima ordem de parada pode ser a última.

