Breaking News

Pix Completa Cinco Anos, Mas Um Quarto dos Brasileiros Ainda Está Excluído do Sistema

Falta de smartphone, internet instável, baixa escolaridade e idade avançada são as barreiras que impedem 23,6% da população, sobretudo os mais pobres e idosos, de usar o pagamento instantâneo.

Cinco anos após seu lançamento revolucionário, o Pix consolidou-se como o principal meio de pagamento digital do Brasil, porém não conseguiu ser universal. Dados do próprio Banco Central revelam que 23,6% dos brasileiros – quase um quarto da população – ainda estão à margem da ferramenta de transferência instantânea e gratuita. A exclusão atinge com mais força os idosos, os moradores de áreas rurais, os indivíduos de baixa renda e as pessoas com menor escolaridade, grupos que enfrentam barreiras intransponíveis como a falta de um smartphone, a ausência de conectividade estável e a dificuldade em lidar com tecnologias digitais. Enquanto o sistema financeiro celebra a eficiência do Pix, milhões de cidadãos como o jardineiro Mario Ramalho, que depende de uma vizinha para receber pagamentos, seguem utilizando métodos analógicos em uma economia que avança rapidamente para a digitalização total.

O caso de Mario Ramalho é emblemático da exclusão digital que se traduz em exclusão financeira. Sem um smartphone que suporte aplicativos bancários, ele se vê forçado a recusar pagamentos via Pix e a oferecer duas alternativas arcaicas aos clientes: dinheiro em espécie ou depósito na conta de uma terceira pessoa. A praticidade do instantâneo se perde em um processo que pode levar dias. “Meu celular é dos antigos, só serve para ligar”, justifica. Sua realidade é compartilhada por uma parcela significativa da população que, por motivos econômicos ou tecnológicos, não possui o dispositivo mínimo necessário para acessar a ferramenta criada justamente para promover inclusão. Esta é a primeira e mais dura barreira: a do hardware.

O perfil dos excluídos do Pix é traçado com clareza pelas pesquisas. Segundo o Banco Central, a adesão é esmagadora entre jovens de 25 a 34 anos (91,2%) e despenca para 43,9% entre aqueles com mais de 60 anos. A renda é outro divisor: 91,7% dos que ganham acima de 10 salários mínimos usam o Pix, contra 67,8% dos que recebem até dois salários. A disparidade geográfica também é evidente, com a conectividade sendo um fator determinante. Municípios com internet precária ou inexistente apresentam taxas de adoção muito menores. A pesquisa TIC Domicílios 2025 reforça o abismo: 15% dos brasileiros não usam a internet, e nas classes D e E, o acesso cai para 73%, frequentemente limitado por pacotes de dados escassos e aparelhos defasados. Para 39% dos usuários, o pacote de dados acaba antes do fim do mês, interrompendo qualquer possibilidade de transação digital.

A questão vai além do simples acesso e mergulha na capacidade de uso. A empresária Antonia Gonçalves, 76 anos, moradora de uma área rural do Distrito Federal, tem uma conta bancária com Pix, mas não consegue operá-la sozinha. Para pagar contas mensais como plano de saúde e funcionários, depende da ajuda sistemática de uma de suas filhas. “Abir o Pix e colocar a chave, eu não sei fazer”, admite. Além da barreira cognitiva e da falta de familiaridade com a interface, Antonia enfrenta a instabilidade da infraestrutura: chega a ficar até três dias sem sinal, sendo obrigada a dirigir quilômetros até uma estrada principal para captar internet. Sua história ilustra o cruzamento perverso entre exclusão digital, analfabetismo funcional tecnológico e carência de infraestrutura básica.

O nível de escolaridade aparece como um correlato direto da capacidade de uso do Pix. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024 são alarmantes: 29% dos jovens e adultos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Deste grupo, 71% tiveram baixo desempenho em habilidades digitais. Entre os que possuem alfabetização elementar, quase metade (46%) tem destreza digital média. A ferramenta, projetada para ser simples, ainda exige um conjunto de competências – ler instruções, inserir dados corretamente, identificar chaves Pix, confirmar transações – que não são universais. Para muitos, a ansiedade de cometer um erro irreversível é um impeditivo maior do que a falta de tecnologia em si.

Diante deste cenário, especialistas alertam que o sucesso quantitativo do Pix não pode mascarar uma deficiência qualitativa na inclusão financeira. Viviane Fernandes, pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), reconhece o feito do Banco Central, mas pondera: “É impressionante o que o Pix conseguiu fazer, mas precisamos prezar pela qualidade dessa inclusão, cujo limite é quem tem como acessar o Pix. Quem tem as ferramentas e o conhecimento para isso?”. Para Lauro Gonzalez, coordenador da FGV, a exclusão do Pix “esbarra fatalmente nas questões de exclusão digital” e acaba sendo “pior para os recortes populacionais mais vulneráveis dentre os vulneráveis”. O desafio, segundo ele, é vencer a “inclusão da última milha”.

As soluções apontadas pelos especialistas passam por múltiplas frentes. A mais urgente é o desenvolvimento do Pix Offline, uma modalidade que permitiria transações sem conexão ativa à internet, utilizando tecnologias como Bluetooth ou NFC. Este projeto, porém, que já estava na agenda evolutiva do BC desde 2023, foi adiado para 2027 na última reunião do Copom, em dezembro de 2025. Enquanto isso não se concretiza, outras medidas são sugeridas: o desenvolvimento de interfaces bancárias mais intuitivas e acessíveis, com design adaptado para idosos e pessoas com baixa escolaridade; a manutenção e o fortalecimento de canais de suporte presencial e telefônico, especialmente em um contexto de fechamento de agências bancárias físicas; e políticas públicas que ataquem o cerne da exclusão digital, com investimento em infraestrutura de internet em áreas remotas e subsídios para aquisição de smartphones básicos por populações de baixa renda.

O atraso na implementação do Pix Offline é particularmente crítico, pois priva justamente os grupos mais vulneráveis de uma solução técnica que poderia driblar a falta de conectividade constante. Sem essa opção, a pressão para a digitalização total, somada à redução de agências e caixas eletrônicos, aumenta a vulnerabilidade de quem já está à margem. A inclusão financeira genuína exige que o sistema seja adaptado à realidade diversa do país, e não apenas que a população se adapte a um sistema único e rígido.

Enquanto as soluções estruturais não chegam, brasileiros como Antonia Gonçalves buscam seus próprios meios. “Estou fazendo curso de informática há um mês, agora já sei até mandar a localização pelo WhatsApp. Não posso ficar para trás, temos que caminhar para frente”, diz ela. Sua determinação é comovente, mas evidencia a injustiça de um sistema que coloca sobre os ombros dos excluídos o ônus de se incluírem, sem oferecer as condições mínimas para tal. O Pix, como política pública de inclusão financeira, só estará completo quando deixar de ser um privilégio dos conectados e escolarizados e se tornar, de fato, uma ferramenta acessível a todos os brasileiros, independentemente de sua idade, renda, CEP ou habilidade com tecnologia. Os primeiros cinco anos mostraram o caminho do sucesso. Os próximos devem pavimentar o caminho da equidade.

Aurélio Fidêncio

(15) 99732-1144

Deixe um comentário