{"id":12055,"date":"2026-03-22T18:24:46","date_gmt":"2026-03-22T21:24:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/?p=12055"},"modified":"2026-03-22T18:24:50","modified_gmt":"2026-03-22T21:24:50","slug":"odio-big-techs-e-extrema-direita-como-opera-a-engrenagem-da-misoginia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/?p=12055","title":{"rendered":"\u00d3dio, Big Techs e Extrema-Direita: Como Opera a Engrenagem da Misoginia no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Especialistas apontam motiva\u00e7\u00f5es emocionais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas por tr\u00e1s do crescimento de discursos e atos de viol\u00eancia contra mulheres; recrutamento de adolescentes e papel das plataformas s\u00e3o destaque.<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, uma s\u00e9rie de casos de viol\u00eancia e \u00f3dio contra mulheres tomou conta dos notici\u00e1rios e das redes sociais. O feminic\u00eddio de uma policial militar pelo companheiro em S\u00e3o Paulo, o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro e v\u00eddeos virais em que homens simulam atacar mulheres que rejeitam pedidos de casamento s\u00e3o alguns exemplos. Para especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, esses epis\u00f3dios n\u00e3o s\u00e3o isolados e integram uma engrenagem complexa de misoginia que conecta experi\u00eancias individuais de frustra\u00e7\u00e3o a estruturas econ\u00f4micas e projetos pol\u00edticos globais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ORIGEM DO \u00d3DIO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Bruna Camilo, pesquisadora de g\u00eanero e misoginia, destaca que a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 secular e est\u00e1 enraizada na constru\u00e7\u00e3o da sociedade patriarcal. &#8220;Falamos muito sobre o aumento dessa viol\u00eancia, mas ela \u00e9 secular, existe desde a constru\u00e7\u00e3o da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submiss\u00e3o das mulheres, e a internet potencializa essa viol\u00eancia&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Confira na reportagem do Rep\u00f3rter Brasil, da TV Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Rep\u00f3rter Brasil, 19\/03\/2026\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2JA9cnKzz8E?start=911&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.jufestlocacoes.com.br\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jufest-locacoes-banner-clickaracoiaba.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11800\" style=\"object-fit:cover\" srcset=\"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jufest-locacoes-banner-clickaracoiaba.jpg 1200w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jufest-locacoes-banner-clickaracoiaba-400x100.jpg 400w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jufest-locacoes-banner-clickaracoiaba-960x240.jpg 960w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jufest-locacoes-banner-clickaracoiaba-768x192.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>O psic\u00f3logo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acrescenta que as express\u00f5es de \u00f3dio \u00e0s mulheres se intensificaram como rea\u00e7\u00e3o \u00e0s conquistas femininas. &#8220;Desde quando as mulheres come\u00e7aram a ocupar outros lugares na sociedade que n\u00e3o fossem o do cuidado dom\u00e9stico. Isso, invariavelmente, mexe nas estruturas da sociedade, na intimidade da vida dom\u00e9stica e familiar&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RECRUTAMENTO PRECOCE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores identificam que meninos cada vez mais jovens est\u00e3o sendo atra\u00eddos para a chamada &#8220;machosfera&#8221; \u2014 termo que engloba f\u00f3runs, canais de v\u00eddeos, grupos de mensagens e perfis em redes sociais voltados para a defesa de um padr\u00e3o conservador de masculinidade e oposi\u00e7\u00e3o aos direitos femininos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ativista feminista e professora Lola Aronovich, que sofre ataques virtuais h\u00e1 anos, relata que o recrutamento acontece de forma gradual. &#8220;Comecei a pesquisar o Discord e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. No meio da conversa, ao falar de mulheres, v\u00e3o usar express\u00f5es como &#8216;vagabundas&#8217; e ver como esse menino reage. Ao perceberem uma abertura, continuam a coopta\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), Julie Ricard mapeou estrat\u00e9gias de recrutamento no Telegram e identificou 85 comunidades abertas. &#8220;H\u00e1 aquelas explicitamente mis\u00f3ginas e outras se apresentam como espa\u00e7os de autoajuda ou desenvolvimento econ\u00f4mico. Nesses casos, os jovens acessam conte\u00fados que parecem neutros, mas encontram narrativas de ressentimento contra mulheres&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos do NetLab (UFRJ) mapearam mais de 130 mil canais mis\u00f3ginos no YouTube e mostram que temas como &#8220;sedu\u00e7\u00e3o e relacionamentos&#8221;, &#8220;quest\u00f5es jur\u00eddicas&#8221; e &#8220;vencer a timidez&#8221; funcionam como pontes para conte\u00fados de \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FRUSTRA\u00c7\u00c3O E VULNERABILIDADE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O psic\u00f3logo Benedito Medrado explica que a engrenagem mis\u00f3gina depende de mat\u00e9ria-prima emocional: frustra\u00e7\u00e3o, isolamento e inseguran\u00e7a, especialmente entre adolescentes e homens em situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vulner\u00e1vel. Jovens que n\u00e3o encontram espa\u00e7o de di\u00e1logo em casa s\u00e3o os mais suscet\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sem intera\u00e7\u00f5es e conflitos, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de a fam\u00edlia criar filtros sobre a informa\u00e7\u00e3o que eles acessam. H\u00e1 um processo de fragiliza\u00e7\u00e3o grande porque est\u00e3o tentando construir a si mesmos, e conte\u00fados violentos podem ser mais atrativos&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre homens adultos, a pesquisadora Julie Ricard aponta que o ressentimento com a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o \u2014 tanto econ\u00f4mica quanto afetivo-sexual \u2014 leva muitos a usar mulheres e o feminismo como bodes expiat\u00f3rios. &#8220;Muitos se apresentam como v\u00edtimas, porque se veem como homens feios ou sem dinheiro. S\u00e3o frustra\u00e7\u00f5es masculinas tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, quanto ao pr\u00f3prio lugar deles na sociedade&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>HIERARQUIAS DO \u00d3DIO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga Bruna Camilo destaca que por tr\u00e1s da aparente espontaneidade dos grupos mis\u00f3ginos h\u00e1 lideran\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o, frequentemente conduzida por homens com mais de 40 anos. &#8220;S\u00e3o pessoas que viveram o mundo antes e depois da internet. Em comum, costumam tamb\u00e9m ser ressentidos, alguns com \u00f3dio inclusive das pr\u00f3prias m\u00e3es&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especialistas tamb\u00e9m apontam o papel das grandes plataformas digitais. &#8220;Esses grupos mis\u00f3ginos notaram que ningu\u00e9m os proibia de agir nas redes sociais. Pelo contr\u00e1rio, passaram a receber dinheiro por serem mis\u00f3ginos. H\u00e1 cada vez mais gente apostando nisso, vivendo disso&#8221;, diz Lola Aronovich, que menciona a assimetria na modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado: canais feministas t\u00eam conte\u00fado derrubado, enquanto canais que defendem a morte de mulheres permanecem no ar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>PROJETO POL\u00cdTICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No topo da hierarquia est\u00e3o pol\u00edticos que influenciam e s\u00e3o favorecidos pela amplia\u00e7\u00e3o da misoginia. &#8220;Antes, os mis\u00f3ginos costumavam se esconder em identidades an\u00f4nimas na internet. A partir da campanha eleitoral do Trump, em 2016, a gente viu uma mudan\u00e7a grande. Eles come\u00e7aram a dar as caras. Depois, com a elei\u00e7\u00e3o do ex-presidente Jair Bolsonaro, a mesma coisa&#8221;, observa Lola.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Bruna Camilo, o projeto pol\u00edtico da extrema-direita se beneficia com ideais reacion\u00e1rios de masculinidade e submiss\u00e3o das mulheres. &#8220;No fundo, trata-se de controle dos corpos. O debate de g\u00eanero provoca discuss\u00f5es profundas na sociedade. O que interessa \u00e0 extrema direita \u00e9 manter o status quo, em que as mulheres n\u00e3o questionam, e os homens concentram poder pol\u00edtico e social&#8221;, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CAMINHOS POSS\u00cdVEIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de avan\u00e7os como a Lei n\u00ba 13.642\/2018, que determina a investiga\u00e7\u00e3o de crimes de \u00f3dio contra mulheres na internet, especialistas apontam lacunas. Uma delas \u00e9 a necessidade de criminaliza\u00e7\u00e3o da misoginia no pa\u00eds. &#8220;O que adianta a Pol\u00edcia Federal dizer que determinada pessoa foi mis\u00f3gina, se isso n\u00e3o pode ser tipificado como crime? N\u00e3o d\u00e1 para ir muito adiante, e gera uma sensa\u00e7\u00e3o de maior liberdade e impunidade&#8221;, diz Lola.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfrentamento exige a\u00e7\u00f5es em m\u00faltiplas frentes: di\u00e1logo em casa e nas escolas, fortalecimento da sa\u00fade mental de jovens e regula\u00e7\u00e3o das plataformas. &#8220;Avan\u00e7amos na legisla\u00e7\u00e3o sobre prote\u00e7\u00e3o digital, mas n\u00e3o conseguimos impedir ainda que as big techs mantenham conte\u00fados mis\u00f3ginos em suas plataformas. Por que at\u00e9 hoje a C\u00e2mara dos Deputados n\u00e3o chamou representantes desses grupos e pediu explica\u00e7\u00f5es sobre a constru\u00e7\u00e3o desses algoritmos? Se n\u00e3o h\u00e1 enfrentamento, \u00e9 porque h\u00e1 interesses pol\u00edticos&#8221;, questiona Bruna Camilo.<\/p>\n\n\n\n<p>==============================<\/p>\n\n\n\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o: Aur\u00e9lio Fid\u00eancio<br>Mat\u00e9ria: Rafael Cardoso<br>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<br>Clickara\u00e7oiaba. A voz confi\u00e1vel da cidade desde 1999.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/?p=11948\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/confaitaria-da-ana-2026-clickaracoiaba-1200x800-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11951\" srcset=\"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/confaitaria-da-ana-2026-clickaracoiaba-1200x800-1.jpg 1200w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/confaitaria-da-ana-2026-clickaracoiaba-1200x800-1-400x267.jpg 400w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/confaitaria-da-ana-2026-clickaracoiaba-1200x800-1-960x640.jpg 960w, https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/confaitaria-da-ana-2026-clickaracoiaba-1200x800-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Misoginia no Brasil: especialistas explicam engrenagem que conecta frustra\u00e7\u00e3o individual, big techs e projeto pol\u00edtico da extrema-direita.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12057,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"magazine_newspaper_sidebar_layout":"","footnotes":""},"categories":[8,105],"tags":[4901,4906,4902,4905,4903,4900,4904,4581],"class_list":["post-12055","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher","category-policia","tag-big-techs","tag-bolsonarismo-machismo","tag-extrema-direita","tag-lola-aronovich","tag-machosfera","tag-misoginia","tag-recrutamento-online","tag-violencia-contra-a-mulher"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=12055"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12055\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/12057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=12055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=12055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clickaracoiaba.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=12055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}