Áudio: “Não tenho cerimônia em quebrar cara de mulher”, diz PM em SP

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Polícia dispersou de forma truculenta foliões em bloco na zona oeste da capital

Policiais militares usaram bombas e balas de borracha contra foliões na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, na noite dessa terça-feira (5/3), deixando ao menos três pessoas feridas. As vítimas relataram que o bloco do qual participavam já tinha se dispersado e poucas pessoas permaneciam nas ruas da região quando foram surpreendidas pela ação, que classificaram como truculenta.

Ao pedir providências no batalhão depois de ser ferida, uma mulher foi ameaçada por um policial militar, que disse que não tinha “cerimônia para quebrar cara de mulher”. Na delegacia, policiais civis se recusaram a registrar o caso.

De acordo com a artista Paula Klein, de 42 anos, diretora do Bloco Agora Vai, o grupo seguiu todas as orientações previstas para dispersão e não havia motivo para atuação violenta da Polícia Militar. Junto à Prefeitura, o bloco registrou que esperava até cinco mil pessoas para, das 15h até as 20h, seguir um curto trajeto por ruas da Barra Funda. Paula diz que por causa da chuva, o bloco foi encerrado mais cedo, às 19h, e às 22h todas as vias da região estavam liberadas para tráfego de carros.

“A Polícia Militar sempre foi grande parceira do nosso bloco. O relacionamento é ótimo há 15 anos e esse ano não foi diferente. Por isso que a ação nos surpreendeu. Mandaram um pessoal despreparado para lidar com o público de Carnaval. Trataram foliões como marginais. O Carnaval foi manchado pela polícia”, disse Paula.

Segundo ela, a polícia chegou ao local às 20h para conversar. Nesse horário, o som do bloco já estava desligado, segundo relatou. “Já estava acontecendo a dispersão natural. Não precisava atuar de modo truculento, estávamos dentro do horário. Fomos conversando com os nossos foliões e havíamos liberado a via (rua João de Barros)”, disse. Depois, segundo ela, por volta das 22h30, a tropa voltou, dessa vez com bombas e tiros de borracha.

Bomba sem conversa
Um dos atingidos pelos disparos foi a atriz Thaís Campos Soares, de 36 anos; o seu namorado, o músico Lincoln Antonio, de 48 anos, também ficou ferido. Ela disse que estava na rua João de Barros, “com muito pouca gente na rua”, quando os policiais apareceram enfileirados, “já tacando bomba sem conversar com ninguém”. “Começaram a dar tiro, spray de pimenta. Bem truculento”, disse Thaís, que foi atingida na costela.

A atriz buscou providências primeiro na sede da 3.ª Companhia do 4.º Batalhão da PM, em Perdizes, responsável pelo patrulhamento da área. Lá, se envolveu em uma discussão em que acabou ameaçada por um policial militar que não carregava nenhuma identificação em seu fardamento.

O agente primeiro pediu que ela mantivesse distância. À reportagem, Thaís disse que permaneceu parada. Depois, ao ser questionado por Lincoln sobre o motivo do disparo que o atingiu, o policial disse que tem de garantir o “direito previsto pelo artigo 5.º da Constituição, das pessoas que pagam IPVA de passarem com seus carros ali, o direito das pessoas de ter o seu devido descanso”. O homem responde que estava na calçada durante todo o tempo e que o tráfego na rua estava liberado já que a rua estava vazia.

Depois, o policial fala para Thaís: “Aponta o dedinho não, se aproxima não. Você vai tomar um atropelo aqui, estou falando para você, toma distância. Não tenho nenhuma cerimônia em quebrar cara de mulher, não. Você presta atenção”. O grupo então decide deixar o 4.º Batalhão e busca registrar a ocorrência no 91º Distrito Policial (Ceasa). Lá, recebe a resposta de que o caso não pode ser registrado e que as vítimas devem procurar a Corregedoria. Os feridos disseram que pretendem registrar o caso.

Ouça o áudio em que o policial ameaça a atriz:

Outro lado
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública disse que a Polícia Militar foi acionada “por conta de interdição de via pelo Bloco Agora Vai, na Rua Brigadeiro Galvão, após o horário permitido”. “As equipes policiais fizeram contato com os organizadores do evento, solicitando a desobstrução da rua, mas sem acordo. Para restauração da ordem pública, foi necessária a intervenção direta para desobstrução da via pública ocupada sem autorização, com técnicas de controle de distúrbios civis no local”.

Sobre o comportamento do policial que ameaçou a atriz, a SSP disse que a “instituição não compactua com eventuais desvios de conduta, colocando-se à disposição da vítima para formalização de denúncia por meio da Corregedoria da Polícia Militar”.

Edição: Aurélio Fidêncio
Fonte: Agência Estado
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